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Escolher Profissão Não Precisa Ser Um Sofrimento!

Escolher a profissão certa não é sorte — é processo

Entenda o que é orientação vocacional, como funciona e quem deve conduzir esse processo


Durante muito tempo, escolher uma profissão foi visto como um “momento decisivo” da vida. Uma única escolha, geralmente no fim da adolescência, que definiria todo o futuro. Não é de se espantar que esse período venha acompanhado de ansiedade, pressão familiar e medo de errar.


Mas a verdade é que decidir o caminho profissional não precisa ser um salto no escuro. Existe um processo estruturado que ajuda a transformar dúvida em clareza: a orientação vocacional — também chamada de orientação profissional.


Embora os dois termos sejam usados como sinônimos, existe uma diferença sutil entre eles.

A orientação vocacional surgiu historicamente com foco na descoberta de interesses e aptidões individuais — aquilo que a pessoa “tem vocação” para fazer. Já a orientação profissional é um conceito mais amplo e atual, que inclui não apenas interesses, mas também contexto social, valores, mercado de trabalho, projeto de vida e planejamento de carreira.


Hoje, na prática clínica, os dois termos costumam se referir ao mesmo processo estruturado de apoio à escolha e ao desenvolvimento de carreira.


A área começou a se consolidar no início do século XX com os estudos de Frank Parsons, considerado um dos pioneiros da orientação vocacional. Ele defendia que uma escolha consciente depende de três pilares: conhecer a si mesmo, conhecer as profissões e relacionar essas duas informações de forma racional. Esse modelo foi a base para o que hoje entendemos como orientação profissional.


Com o avanço da psicologia, novas teorias ampliaram essa visão. O pesquisador John L. Holland demonstrou que pessoas tendem a se sentir mais satisfeitas quando existe compatibilidade entre seu perfil e o ambiente de trabalho. Ele organizou os interesses profissionais em seis tipos principais, mostrando que realização não depende apenas de habilidade, mas de encaixe.


Mais tarde, Donald Super trouxe uma contribuição importante: a carreira não é uma decisão única, mas um processo que se desenvolve ao longo da vida. Isso significa que mudar de ideia ou redirecionar a trajetória faz parte do crescimento.


Mas, afinal, para que serve a orientação vocacional?


Ela serve para ajudar a pessoa a tomar decisões com mais consciência e segurança. O processo reduz a ansiedade típica desse momento, amplia o autoconhecimento, organiza possibilidades e transforma insegurança em planejamento. Não é sobre descobrir “a profissão perfeita”, mas sobre construir uma escolha mais alinhada com quem se é e com a realidade disponível.


E quem é o profissional responsável por realizar a orientação vocacional?


No Brasil, esse trabalho deve ser conduzido por psicólogo(a), já que envolve avaliação psicológica, aplicação de instrumentos reconhecidos pelo Conselho Federal de Psicologia (quando utilizados) e análise técnica do perfil do orientando. A formação em Psicologia garante preparo teórico e ético para conduzir o processo com responsabilidade.


Na prática, como funciona a orientação vocacional?


O processo começa com entrevistas e conversas aprofundadas sobre história escolar, interesses, habilidades, valores, expectativas familiares e medos. Em seguida, podem ser utilizados instrumentos psicológicos validados, além de atividades reflexivas que ajudam a organizar ideias e ampliar a percepção sobre si mesmo.


Uma etapa fundamental é a exploração realista das profissões — entender rotina, formação necessária, mercado de trabalho e possibilidades de atuação. Por fim, ocorre a devolutiva, momento em que todas as informações são integradas para auxiliar na tomada de decisão.

Importante destacar: a orientação vocacional não entrega uma resposta pronta. Ela fortalece a autonomia para decidir.


Embora seja mais procurada por adolescentes em fase de vestibular, a orientação também é indicada para universitários com dúvida sobre o curso, adultos insatisfeitos com a carreira e pessoas em transição profissional. Em um mundo onde trajetórias lineares se tornaram cada vez mais raras, aprender a decidir com consciência virou uma habilidade essencial.


Pesquisas na área da psicologia da carreira, como as desenvolvidas por Robert W. Lent e colaboradores, mostram que decisões baseadas em autoconhecimento e senso de competência aumentam a satisfação profissional e reduzem a indecisão.

Talvez o maior mito seja acreditar que existe apenas um caminho certo. A orientação vocacional não elimina todas as dúvidas — mas transforma dúvida em reflexão e reflexão em escolha.


No fim, escolher uma profissão não é apenas decidir o que fazer. É decidir quem você deseja se tornar ao longo da sua trajetória.


Janaina Cavalcanti - Psicóloga Clínica CRP 05/69842


Referências

Bandura, A. (1986). Social foundations of thought and action: A social cognitive theory. Prentice-Hall.

Holland, J. L. (1997). Making vocational choices: A theory of vocational personalities and work environments (3rd ed.). Psychological Assessment Resources.

Lent, R. W., Brown, S. D., & Hackett, G. (1994). Toward a unifying social cognitive theory of career and academic interest, choice, and performance. Journal of Vocational Behavior, 45(1), 79–122.

Parsons, F. (1909). Choosing a vocation. Houghton Mifflin.

Super, D. E. (1990). A life-span, life-space approach to career development. In D. Brown & L. Brooks (Eds.), Career choice and development. Jossey-Bass.

 
 
 

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